Até o amanhecer
dezembro 14, 2009
Ele estava andando desde que a noite começara – e isso já fazia muito tempo. Era sempre assim: bastava sentir-se acuado dentro de si mesmo que andava por horas a fio, até que conseguisse se entender. Era estupidamente ótimo vagar sem nome pela cidade. Tinha um rosto, um corpo (estava vivo!), mas era completamente desconhecido – podia ser qualquer um, com qualquer história, com qualquer preocupação. Adorava esconder-se na ignorância do mundo com relação à ele. Como era ótimo sentir-se anônimo! Ser anônimo era estar livre.
Tinha medo. Morria de medo, aliás, de não saber o que era aquilo que crescia dentro de si. Não sabia o que fazer quando sentia o corpo inteiro arrepiar por nada, ou quando perdia a fala por conta de alguma coisa boba. Não sabia por que se preocupava tanto com tão pouco. Não sabia porque ela fazia com que o humor dele se alterasse tanto. Não sabia, diabos, porque ela não lhe saía da cabeça.
Seus pés engoliam as ruas com uma necessidade tão frenética quanto a necessidade de tê-la por perto corroía sua mente e confundia seus sentidos. Podia fumar, beber, se drogar (o diabo que fosse!) — ela estaria nele em todos os segundos. São ou não, ele estava com ela, queria ela, era dela ela. Não importava o quanto andasse, o quanto tentasse desviar sua atenção: todas as coisas assumiam um segundo plano. Ele mesmo estava em segundo plano.
Seus dedos estavam terrivelmente gelados. O corpo parecia quase inteiro frígido, mas tinha a impressão de ter o peito e a cabeça em chamas. Sentia-se queimar, queimar e queimar. Queria gritar para que ela parasse antes que só lhe restassem as cinzas. Mas parasse de quê? Ela não precisava fazer nada, absolutamente nada – o simples pensar nela fazia com que ele queimasse, e ele pensava nela o tempo inteiro.
Andou muito, pensou muito. Não parou por um só segundo e, quando o sol já estava nascendo, olhou o horizonte e viu que não tinha compreendido absolutamente nada. A ignorância o perturbava tremendamente, já que nunca fora ignorante, muito menos a respeito do que ele próprio sentia. Sempre soube onde esteve e onde iria estar. Olhou o relógio, deu um sorriso e acabou esquecendo que não gostava de não saber. Acabou esquecendo de tudo, porque notou que já era hora de encontrá-la.
Casa comigo?
dezembro 11, 2009
“Casa comigo?” pediu, assim, sem mais nem menos. Pediu exatamente quando ele não esperava pelo pedido. Recebeu em troca um olhar meio desconfiado, meio cheio de medo, de dúvida. “Casar com você?” ele perguntou, olhando para ela como se tivesse errado a pessoa. Mas não tinha, não – era ela mesma quem estava junto com ele, que tinha esperado por ele na plataforma, que ficava fascinada com o jeito que ele fixava os olhos nos olhos dela e passava assim, reto, indiferente ao resto do mundo. Quando ele fazia isso, ela se sentia única na vida dele e de resto pouco importava.
“É, casar. Casar comigo” repetiu, calma. Tinha certeza de que ele aceitaria. Tinha sim, afinal, ele tinha jurado tanto, feito tanto. Tinha tanta coisa ali entre eles, não tinha não? Ele sempre disse ter e ela sempre acreditou – e mais! – sentiu ter. Ele deu um sorriso de quem estava pedindo para ela parar com a brincadeira. Mas ela continuou firme, séria. Não tinha nada de brincadeira não. Acima de tudo, estava confiante.
“Olha, eu não sei não…” com a voz, vagaram os olhos que por alguns segundos ficaram dançando no vazio de quem está pensando. Depois, fixaram-se num grande relógio que encimava a torra da igreja, lá longe. Era possível ver as horas, se você tivesse um olhar bem aguçado. Mas o que ele buscava no relógio não era o tempo; era a razão que tinha perdido. Esperava encontrar tal razão nela, mas não tinha. Em vez disso, o que encontrara foi só o desespero de estar contra a parede. Era para ser uma situação tão delicada, tão simples: se fosse antes, ele teria aceitado sem pensar. Teria?
Ela não falou nada. Ficou só de olho, esperando, esperando. Não tinha nenhuma pressa, entende. Queria casar só para que pudesse se identificar como a mulher dele e identificá-lo como marido. Não estava interessada em muito mais: queria apenas tê-lo, mas talvez não houvesse ainda aprendido que ter as pessoas não tem nada a ver com compromisso – tem a ver com paixão. Ela sabia o que era essa paixão, afinal, sentia-a. Vivia apaixonada, mas queria pura e simplesmente sentir-se dona, coisa que nunca ninguém conseguiria ser de ninguém, já que nem dono de nós mesmos nós conseguimos ser.
Ele olhou para ela, num segundinho infinito em que tentava decidir. Doía não amá-la, mas doeria mais ainda se fingisse estar amando-a. Não estava, nunca esteve. Era bom tê-la, estar com ela, mas nunca foi exatamente com ela que ele quis estar. Aceitar seria agarrar-se num compromisso que ele pensou, um dia, que poderia existir. Encarando-se agora, vendo a verdade nua e crua, sempre soube que aquilo tudo era uma mentira. Tinha mentido, não só para ela como para ele, para o mundo. De que adiantava negar que era mesmo um mentiroso? Mas não fazia isso em plena consciência. Mentiu porque precisava alimentar-se de suas ilusões, precisava inflar-se. Mentiu sem querer, porque queria ser.
“Escuta, menina, melhor eu ir andando” disse, tossindo como se tentando se livrar de alguma coisa. Entregou a aliança na mão dela, beijou-a no topo da cabeça e disse uma das poucas coisas que sempre dizia com sinceridade: “Cuide-se, pequena” virou as costas e se foi, depois de falar.
Ela ficou ali, com cara de quem não tava entendendo nada. Ficou vendo ele sair, imaginando pra quem é que ele estava olhando fixamente agora. Vendo-o desviar das pessoas ao redor, sentiu-se, pela primeira vez, exatamente como elas: ninguém na vida dele. Apenas parte do cenário, figurantes. Pessoas que não importavam, porque só importava, para ele, a pessoa que detivesse aquele olhar fixo que só ele tinha. Não conseguiu se mexer. Não chorou, ainda, mas sentiu os joelhos tremerem um pouco. Era horrível sentir-se desimportante.
Eu sei
dezembro 9, 2009
O que eu vou te contar não é pra você contar pra mais ninguém, ouviu? É uma coisa minha, sabe… é minha estória. Não sei se quero que todo mundo saiba que eu sou fraco, entende?
Ah, não me venha com essa história de que sou forte. Sou fraco, sim, frágil. Só sou forte para os outros, porque fazer c0m que eles se apóiem em mim é a única coisa que me faz continuar. Eu preciso fingir ser forte porque sou tão imensamente fraco que às vezes tenho medo de, ao respirar, partir os pulmões. Mas não me distraia, eu preciso te contar de uma vez.
Sabe, começou porque a gente não tinha nada pra fazer. Me disseram uma vez que é assim que se começam todas as coisas duradouras: da liberdade de não fazer absolutamente nada, porque não se tem nada o que fazer. Eu estava perfeitamente ausente em mim quando ela passou, feito um furacão, e me arrastou junto. Não, não que ela tenha passado feito louca. Na verdade, ela veio com a calma das tempestades mais duradouras, aquelas que começam com um chuvisco e duram a noite inteira, e a gente acorda com a casa encharcada porque não achamos que aquela chuvinha ia molhar, mas sempre molha. Sabe do que eu tô falando, não sabe? Pois é. Dessa vez, eu tive a impressão de que não ia conseguir secar o estrago feito pela chuva. E até agora não consegui.
Eu não sabia o quanto estava inerte até que ela me acordou de uma noite sem sonhos. Não tinha motivo nenhum pra não falar, mas também não tinha motivo pra falar. A gente só foi porque tem que se ir a algum lugar. Porque temos que fazer alguma coisa quando, mesmo inconscientemente, percebemos que aquilo não é coisa pra todo mundo, não. É coisa só nossa. É uma das coisas que só nós podemos entender e, mesmo assim, não entendemos, talvez porque perca toda a graça entender.
Então nós fomos, sabe. Seguimos às cegas e eu já sabia onde iríamos parar. Não sabia se era bom ou ruim, não quis saber: preferi dar a mim mesmo o benefício da dúvida. De repente, eu não podia mais fazer alguma coisa sem pensar nela. De repente tudo que eu fazia tinha ela como propósito final, mesmo que fizesse as coisas puramente para deixá-la brava. Não me olha com essa cara de quem já ouviu isso, tá bom? Eu sei que já ouviu, mas eu preciso dizer mesmo assim. Eu não te disse sobre a minha fraqueza? Sou fraco demais pra conseguir deixar tudo isso preso dentro de mim. Mesmo que não fale nada, me escute.
Se eu quero um cigarro? Eu não fumo não. Sabe, já fumei, mas foi só pra ter a atenção dela. Eu precisava saber o quanto ela se importava… e sinto que ainda preciso saber, porque nem sempre acredito naquilo que eu presumo. Eu sei dessa minha constante necessidade de estar em primeiro lugar. Claro que eu sei. Também sei dessa minha chata mania de querer as pessoas pra mim num nível que nem sempre é possível tê-las. Sei que exijo dos outros o que não dou de mim, eu sei, eu sei, já me disseram isso… mas eu não sei mudar não.
O quê? Você não quer mesmo saber? Tudo bem, acho que ninguém quer mesmo saber…
Gentchêm
junho 20, 2009
considerem como se aqui estivesse “fechado para reformas”. Não estou mesmo tendo tempo de postar.
Calando a madrugada
junho 14, 2009
O frio suplantava a madrugada, tirando o ânimo dos festeiros e bêbados, que agora caíam aos meus pés em busca de um gole a mais de cachaça para amansar a garganta ou uma carona para a casa. Os pedidos desesperados davam riso aos meus lábios exangues, e era minha diversão sentir-me superior. Eu andava em silêncio, acometido pelo frio dos oito graus. Por mais frio que estivesse, eu não parava. Era estava obstinado mas, diferente da maioria, não tinha um lugar em mente. Eu apenas andava, certo e incerto, esperando por uma tentação. Eu queria ser tentado.
Soltei um bafejo que se desprendeu, esguio, ao que meu corpo tremeu de frio. Procurei por onde parar, um esgar de raiva cortando meu silêncio. Parei, mas não como fariam os “normais”, dentro de um bar ou alguma coisa. Parei na rua mesmo, dando apoio ás minhas costas com uma parede, que não chamava minha atenção por nada além de possibilitar um lugar bem embaixo de um toldo. Antes prevenir da chuva do que tentar remediá-la e congelar.
Não passou muito tempo e um rapaz se juntou a mim. Ele parecia novo, com frio e abatido, vi olheiras em seus olhos. Não me lançou um olhar sequer. Virou-se para o outro lado e acendeu um cigarro. Passei a língua sobre os lábios ressequidos antes de lançar a voz, um sussurro divertido e um tanto rouco, além de um tom um tanto estranho.
“Não te preocupa com o câncer que vai lhe roubar a vida daqui há algum tempo? Passatempo, vício, o que é o seu cigarro?” claro que era uma pergunta estranha, mas de normais o mundo estava cheio.
Ele me devolveu um olhar que calaria a madrugada.
Perdão
junho 11, 2009
Minha cara estava enfiada na terra, haviam folhas em minha boca. Meus braços nus revelavam o frio que o corpo não processava: os pelos estavam eriçados. Imóvel, eu era uma pedra a suar frio contra o chão da Floresta Proibida, embora eu não tivesse consciência de estar ali. Eu não tinha consciência de nada: tudo que eu conseguia pensar era nela, seu corpo rígido repousado na minha sala de estar, a pele gelada, morta. A morte que eu havia provocado. Meu homicídio.
Demorei algum tempo do qual não tenho nota para levantar as pálpebras, e mais tempo ainda para conseguir processar que eu estava vivo. Levantei o tronco, gotas frias de suor indo molhar a gola de minha blusa e minhas costas. O desespero que se acumulava em mim fazia-me crer que a qualquer momento eu me romperia, estaria a espalhar minha essência e minha culpa por todos os lados.
Olhei para os lados. O que era aquilo? Perda de memória? Eu sabia que remédios poderiam fazer isso muito bem. Quem era eu? Eu tinha dupla-personalidade? Ela… eu estaria ali naquela floresta após ter enterrado o corpo dela? O que tinha se passado durante todo esse tempo? Não conseguia encaixar nenhuma peça do meu tabuleiro mental. Só escutava o barulho das folhas movidas pelo vento e a copa das árvores balançando; de resto, tudo era silêncio.
O silêncio estava me devorando. Infiltrava-se em minha carne, contaminava minhas células, moía meus ossos, perfurava meu coração. Meu consciente estava inconsciente e eu gritava por socorro. Minha voz não saía, mas, mentalmente, eu gritava. Eu era o culpado, o assassino, mas queria consolo. As lágrimas eram salgadas e consolavam minha tez do modo mais rude possível. Era um subterfúgio.
Meu choro era inevitável e, só então, minha voz saía, esganiçada, estranha, como se eu não a ouvisse por muito tempo. Minhas palmas fizeram apoio para minha face desesperada e encolhi-me instintivamente em busca de um socorro vão. Não havia outra alternativa que não fosse lamentar. Lamentar pelos erros, pela morte… pelo assassinato. Eu era um assassino!
As lágrimas desciam em cascata e eu não conseguia contê-las. Eram muitas, esvaíam por meus dedos, perpassavam meus lábios, salgavam minha língua. Meu corpo se sacudia em soluços e eu expressava minha fraqueza ao derramar meu pranto para o silêncio.
Demorei muito tempo ali, preso ao chão por fios lacrimosos. Quando me desfiz e ergui-me, os olhos inchados de choro, olhei para o céu muito azul e um sorriso malicioso cortou minha face. Meus olhos, antes famintos por paz, agora estavam esguios e espertos, querendo vagar na surdina atras da próxima vítima.
Limpei minha roupa da terra e das folhas, passei a mão pelo cabelo e fui atrás de minha pá. Eu precisaria dela, já que logo teria outro corpo para enterrar. Andei cantarolando e depois de quase uma hora de caminhada, sentei-me com um suspiro pesado ao banco da caminhonete esporte de cor vermelha que me possuia e girei a chave na ignição, dando partida.
Metáforas Vazias
junho 7, 2009
Depois te um tempo, perde-se a certeza. O belo, inestimável e inconcebível, passa de todo para um rebusco, a condolência extirpada do cego. Remete ao suicído da memória toda e qualquer idéia condenada de paixão. Infâmio poder que assombra o exangue incurável, que não se pode ter certeza do talvez.
Depois de um tempo, quase que por reflexo, as horas só fazem soma ao passado de irrefutáveis vergonhas, mas de cabido valor caso não houvesse sido condenado. Virulentas são as lembranças que se desprendem do céu, caindo feito flor de chumbo sobre as almas penadas.
Depois de um tempo, nota-se como o amor se tornou a chuva em época de estiagem, oriunda de erros levemente acertados, uma dose de açúcar, quem sabe um pouco de sal. Todas as respostas são como metáforas vazias, figuras de linguagem bem empregadas para a falta de coragem.
Depois de um tempo, o lesado sopro de vida não percorre mais sua marcha natural; perpassa com voracidade em busca de oxigênio para inflar-se, desesperado e sempre contido para não deixar saber os segredos mais falsos, as mentiras mais fáceis, os erros mais inabdicáveis e que, se pudessem, seriam mais uma vez cometidos.
Vende-se o Paraíso
junho 4, 2009
Antes
— Com este pedaço de papel, terá garantido vosso lugar no céu.
— Mas só com esse pedaço de papel?
— Sim! Não acredita no caminho que a Igreja está trilhando para você? Apenas uma quantia exata de dinheiro e terá o teu lugar no paraíso; o ápice do apelo dos homens. Faço isso por você, eu já tenho meu lugar no paraíso.
— Mas… eu pequei… não mereço o paraíso.
— Nosso Senhor é misericordioso, ele o perdoará. Com o papel, você terá purificado sua alma dos pecados que cometeu. Nosso Deus perdoa a tentação já que sabe como ela afeta os homens.
— Se ele perdoa, porque vou comprar esse pedaço de papel?
— Porque ele é o passaporte para tua estadia lá em cima!
— Bom… se você diz…
— Eu não, quem diz é a Igreja. Vai contra a casa de Deus?
— Err… não! Eu compro…
— E tua família, vai ficar presa neste inferno terreno sem poder atingir o céu? Vai deixar seus familiares sem um pedaço no paraíso, irmão?
Depois
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É…
Basta dizer
junho 3, 2009
“Pecador tem de ter vontade de pecar, ou é marionete de seu ego apenas ficticiamente supressado.”
“Amor se destoa como as estações: Verão é o começo, a época quente, os melhores beijos, os melhores tempos. Depois vem o inverno, a época fria e o começo de uma parte agridoce. Segue-se a primavera e tudo volta a ser bom, a época da lembrança. Por fim vem o outono e tudo acaba, morre de seco o amante.”
“O ápice do exílio não o deliberado desuso de espelho: é o amor a este. “
“O meio termo do amor não é a paixão: é a carência.”
Gotas de Coragem — O Capitão e o Marujo (parte 3)
junho 3, 2009
Acordei com cãibras horríveis nos braços, por ter permanecido com eles nas costas durante o sono. Ainda amarrado, me levantei resmungando e tentando fazer a sensação de adormecimento passasse. Eu ouvia conversas e risadas vindas lá de fora. Minha mente, lerda, demorou um segundo para lembrar que eu estava no navio pirata. Quando finalmente o fiz, olhei assustado ao redor e procurei por alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse soltar meus braços antes que eles caíssem.
Bem quando achei uma ponta de ferro que se projetava de o que parecia ser um grande martelo, a porta do convés se abriu com violência e entraram dois marujos, fortes, sujos e bem queimados de sol. Seguraram-me e, com uma faca, cortaram as amarras dos meus pulsos. Suspirei de alívio e movimentei os pulsos recém-soltos, com a intenção de livrar-me um pouco da dor. Fui puxado para fora brutalmente e, assim que saí do convés, semicerrei os olhos com a força do sol. Eu não sabia porque eles estavam me mantendo vivos, mas por boa coisa não seria.
Agora que era dia, eu podia ver o quão imenso era o navio. As velas negras estavam, como o navio inteiro, sujas e manchadas. A madeira que construía aquela embarcação imensa era escura, também. Vários homens passaram por mim, sem parecer sequer notar minha presença. A maior parte deles estava sem camisa, com os corpos truculentos a mostra. Alguns possuíam várias cicatrizes, outros, tatuagens. Mas uma coisa era certa: dali, ninguém tinha o corpo limpo, sem imperfeições ou sem marcas. Eram, definitivamente, homens do mar.
Continuei sendo puxado até chegar ao leme, quando finalmente soltaram minhas roupas. Fiquei de frente para um homem que só podia ser o capitão. Ele estava de costas para mim, mas, mesmo assim, eu tinha certeza da patente que ele ocupava dentro da embarcação. Eu podia ver seu cabelo comprido, até a metade da cintura, castanho-escuro com certas partes claras, com certeza queimadas pela exposição excessiva ao sol. Ele me lembrava algo de cigano, com uma roupa estranha em cores mais esquisitas ainda: púrpura e azul desbotados. Quando se virou para mim, vi que sua blusa (de cor branca na frente, com detalhes em púrpura e dourado) possuía um corte em “V” que descia até o seu abdome. Isso expunha um tanto de sua pele parda e dava destaque á um colar com um pequeno orbe azulado na ponta. Segurava o chapéu na mão, a outra mão segurando o leme. Em sua cintura, pendia, como em todos os marujos, uma pistola e uma espada, embora estas parecessem ser de melhor qualidade do que as dos outros. A calça dele, depois de um cinto de pano também púrpura, era preta e tampava as botas. Ele era estranho, mas seus olhos cor de azeitona esbanjavam um ar de realeza e astúcia. Parecia, para dizer pouco, alguém de muito respeito e que não tardaria em meter uma bala na cabeça de quem se colocasse a sua frente.
— Ora, então é você o infante chorão? — disse com sua voz rouca, dando um sorriso e exibindo dentes sujos, embora um deles fosse de ouro. Ao contrário das outras vozes, esta não carregava aquele ar de zombaria; parecia, estranhamente, impressionado.
Assenti vergonhosamente, sentindo meu rosto arder de novo. Ele esticou a mão que antes segurava o leme para mim, e eu vi em seus dedos vários anéis, um deles com uma pedra roxa e brilhante. Algumas pulseiras também estavam em seu pulso. Eu ia apertar a mão dele mas, ao que parecia, não era bem isso que ele queria. Sua mão não estava de lado para que eu a apertasse; estava com as costas virada para meu rosto, como uma dama faria, talvez. Sem saber ao certo o que fazer, desajeitado, segurei na mão dele e a apertei, virando-a de lado e fazendo como um educado cavalheiro faria com outro. Ele riu da minha cara e o marujo que estava atrás de mim riu também.
Encarei o capitão com um olhar de dúvida e ele continuou rindo, até que subitamente parou e chutou, com uma força tremenda, meus joelhos, me fazendo cair ajoelhado. Gritei com o susto e ele, voltando a sorrir, soltou minha mão e voltou a esticar a dele naquela posição de dama.
— Beije.