Utopia

Num Piscar de Olhos

ou Promessa Número Um

O sol que vinha cortando do céu, diretamente do céu, descendo em linhas luminosas, vibrante naqueles cabelos de cores clareadas, diversas, indefinidas. O sol tocou o rosto, que era alvo, e sério, atento, olhava para a frente em profunda concentração. Mas eu não estava prestando nenhuma atenção naquela expressão: meus olhos eram olhos para aqueles outros olhos. Também não tinham definição. Eram verdes. Ou não eram. Castanhos. Ou não eram. Eram bonitos – ah, isso eram, definidamente bonitos, e aquela cor nova não causava em mim nenhum espanto, mas uma espécie de ternura morna que se insinuava para dentro do peito, como que escorrendo, daquela cor, daqueles olhos. Minha compreensão era muito limitada. Sequer compreendia alguma coisa. Meu mundo era formado por aquela visão: uma mulher, e o sol que batia. O sol que batia era tão importante quanto a mulher que iluminava, e os dois, ali, ignorando-se mutuamente, eram o meu casal mais lindo. O rosto tomava calor, ignorando os raios que lhe aqueciam, e a mulher mexia no cabelo, na ponta de uma das mechas, em sua compreensão inconsciente de que eu a observava. Meus olhos se enchiam de ternura, que escorria. Escorria para dentro de meu peito. Nada mais havia. Que era aquilo, aquela menina, ou mulher, não sei bem? Por onde é que se separa uma menina de uma mulher? Havia eu, o infinito daquele espaço, e ela, sentada distante, inconscientemente consciente de que eu a observava em meu silêncio. O súbito daquele momento era que – eu não compreendia o porquê – eu a observava com ternura evidente, força máxima. Como se fizesse uma promessa. Eu fazia. Faria tantas outras. Mas aquela era a primeira promessa: de que faria sempre seus olhos derramarem a cor indefinível. Eu lembraria daquele segundo único incontáveis vezes. E naquele segundo único, o meu universo, antes tão grande, vibrante, volátil e volúvel, perdia suas cores: era cinza. E ganhava cores novas: era maravilhoso. Nada havia entre nós, eu e aquela menina-mulher-eu-não-sei-bem que ingenuamente se aquecia ao sol. E eu olhava aqueles lábios e pensava: que é que fazem sozinhos? Olhava aquelas mãos e pensava: que é que fazem sozinhas? Olhava aquele coração e pensava: que é que faz sozinho? Meu Deus, o que é que essa menina está fazendo sentada ali sozinha, nesse momento único? O que é preciso para alcançá-la? Eu preciso ser o sol? Iluminá-la ou aquecê-la? Existe algo dentro de mim que é quente, vibrante, e eu não sei direito como devo tratar. Raspa um pouco a minha garganta, algumas vezes escorre dos meus olhos. Tenho dificuldade em compreender esse sentimento novo, nascido nesse toque entre o sol e menina, esse momento mágico que só eu vi e só eu pude compreender. Não peço nada, nem nego nada, nem espero por nada: o segundo, em seu infinito, acaba. A menina pisca os olhos.

Por Que Eu Não Sei Dizer Adeus

Me desculpe, mas eu não sei dizer adeus. Mesmo um “até logo” me machuca. Ferida que sacode o corpo, se calo os lábios, a alma sente, e chora: meus olhos choram. Sinto, mas sou assim. Não sei dar um abraço, um sorriso, boa sorte e logo nos vemos. Não compreendo distâncias e separações. Não compreendo esperas. O mundo para mim é sempre agora, não há futuro. Quem vai, vai para nunca mais. Mas quem volta, renasce. Ah, que alegria seria se eu pudesse dizer sempre que não fossem! Se eu pudesse esperar sempre que voltassem! Mas não posso. O mundo se encerra num adeus. Um adeus é o fim de toda e qualquer esperança. Um até logo tampouco minimiza tamanha dor: até logo é como fragilizar o adeus, como minimizá-lo, como fazer da morte uma pilhéria. Não existe até logo. Não existe adeus. Tudo o que existe é saudade.

Liberdade

Imagine este homem que, achando-se detentor de muita liberdade, parou na beirada de um precipício e espiou para dentro. O que viu foi só uma descida gigantesca que terminava abruptamente, e para ela olhou até ouvir uma voz às suas costas. Ao virar-se, deparou-se com um velhinho de cabelos muito brancos, que lembrava mais um agrupamento de pequenas plumas. Sorriu para ele, acenando. “Você me assustou”, disse o homem ao velho.

“Penhascos geralmente deixam todos alerta, não é verdade? O que você fazia aí?” foi a pergunta do velhinho, e o homem alçou os olhos para um pássaro que voava livremente, em círculos no céu. “Eu estava contemplando a minha liberdade” foi a resposta.

“Como assim?” o velhinho de plumas no topo da cabeça estava bem próximo agora, quase lado a lado. Observaram-se por um instante. “Olhe.” pediu, indicando o abismo “Você também não sente a liberdade aflorar em suas veias? Se eu tenho a liberdade de me jogar, eu posso fazer qualquer coisa.”

O velhinho sacudiu a cabeça. “Por que não se joga, então?” parecia uma pergunta com vários caminhos. “Porque eu não quero morrer”, foi a resposta. O velhinho sorriu um sorriso de dentes gastos, e olhou-o mais profundamente, sábio. “Por que você não quer morrer?” perguntou, e o homem quase riu. “Ora essa, não quero morrer porque quero viver.”

“O que é viver pra você?” foi uma pergunta difícil. “Viver? Ué. Viver é viver. É continuar a vida. É evoluir, expandir meus caminhos, ver minha família crescer e os que estão à minha volta evoluírem também.”

“Mas você queria se matar?”, perguntou o velhinho insistente. O homem pensou por um instante. Algo naquele outro lhe atraía a sinceridade, como se a iscasse do fundo de sua mente. “Olhando de perto, acho que até sinto vontade de pular…”

“Então sua liberdade é completamente falsa.” retorquiu, e o homem começou a ficar irritado. “Minha liberdade reside exatamente na possibilidade de escolha.” O velhinho sorriu de novo. “Não. A escolha não significa liberdade, é uma obrigação. Você não pode não escolher: se não pular, escolheu isso, se pular, também escolheu. Sua falta de liberdade comprova-se pela escolha em não fazer algo que se tem vontade.”

O homem se calou.

“Mas não se sinta culpado por isso”, continuou o velho, “nossa raça não nasceu para ser livre. Só é livre quem é sozinho, e qual humano consegue viver sozinho? Não há. Aqueles que tentam, enquadram-se numa sociedade esquematizada e não são sós. O agrupamento de seres humanos fez nascer uma sociedade e diversos graus de importância, tais como família e amizade, aos quais o ser está profundamente atrelado e que são ainda mais limitadores da liberdade do que qualquer outro. Vê, não se joga porque não quer abandonar aqueles que gosta, e esses também não se jogariam pelo mesmo motivo. Deixamos de fazer determinadas coisas pela preocupação de que elas machuquem aqueles que gostamos – somos presos às pessoas. A amizade, o amor, a paixão – nos prendem, nos limitam e nos machucam por toda a existência, mas também são os motivos pelos quais escolhemos não pular. O ser humano não consegue se livrar disso, nem se livrará: ele não nasceu para ser só, pois, se assim tivesse acontecido, não mais existiria. Se o homem sentasse diante de si e em si pensasse, seus desejos realizasse sozinho e se fosse indiferente ao resto do mundo, se jogaria. Todo pequeno humano que olhasse para si mesmo, mais cedo ou mais tarde se lançaria ao precipício. Você me pergunta agora, por quê? Porque uma diversidade imensa de sentimentos existe nos homens, e deles estes são prisioneiros eternos. A união existe para os homens como um antídoto para o próprio sentir, pois o sentir é incompleto, incapaz de se completar, e inclina o homem à morte. Se não fôssemos todos presos à outros homens, morreríamos pela liberdade de morrer, e não viveríamos pela liberdade de viver – por vivermos não existe liberdade.”

Quando o velho se afastou, o homem olhava desejosamente pela beirada do precipício.

O Homem Que Falava Com Ursos I

Quando olhou os olhos dela naquele começo de alvorada, soube que já era hora de partir. O inadiável vinha sendo adiado já fazia tempo, e a situação cada vez mais insustentável vinha sendo sustentada à força, engolida por mais que ele se achasse de todo um corpo cheio daquela podridão. A distância não o assustava, tampouco a idéia do desemprego – o que o assustava era de fato o medo da solidão. De ser um ser só, único e sozinho, que, por mais que tivesse já um bebê de alguns anos, por ele não seria inteiramente reconhecido. O preço de sua liberdade podia ser a solidão eterna e incurável, a solidão interna. Mas disso não se sabia – era um risco, pegar ou largar, ir ou ficar. Ele aceitou o risco.

Foi-se num dia do qual não tenho memória. Não sei como foi sua partida, nem o que disse ao partir, nem se houveram saudades e tristezas ou talvez um pouquinho de alegria – não sei nada. Sua partida é tão verdade para mim quanto qualquer outra coisa de passado remoto que me contem. Mas se eu acredito? É claro que acredito. Em alguma coisa se tem que acreditar, e a história se monta naquilo que acredita-se ou acreditou-se um dia – eu acredito que tenha ido embora num dia triste e que tenha dito algumas palavras bonitas de esperança, mas palavras bonitas de esperança só servem para serem ouvidas e lembradas. As dele nem lembradas foram.

Partiu-se, então. Foi para a nova vida. Se já tinha alguém nela? Eu não sei. Se foi difícil, se foi fácil, se foi bom ou se ele teve vontade de voltar? Eu também não sei. Se perdeu-se em espirais consecutivas de uma auto-miséria ou se deixou esfarelar ao regar de uma vitória, não sei. Se me contaram, já esqueci. Sei que foi, e em algum momento encontrou alguém – não sei depois de quantas pessoas, nem sei se houveram pessoas antes. Tirou o pó de si e casou-se.

Quando se casou eu também não sei, nem como foi o casamento, se foi bonito ou feio, se foi muita gente ou pouca ou se realmente aconteceu. Não sei – esqueceram-me. Sei que falava com ursos. Não sei também quando foi que começou a conversar, ou se era eu quem falava e ele roubou-me o dom, ou se assim começou a fazer porque ainda se sentia sozinho. Em algum tempo, começou a falar com ursos. Fingia ouvir umas respostas (ou talvez as ouvisse), algumas vezes mirava-os com mútua compreensão, e sempre levava pelo menos um consigo aonde quer que fosse. Os ursos eram – sempre foram – a infinita representação de um dos castigos de sua partida: a minha distância.

Não há o que re-estabeleça o rompimento adiantado de uma tentativa de conexão – nem dinheiro nem uma visita por ano ou qualquer tentativa do mundo. Partindo-se essa corrente não se pode atá-la, da mesma forma que não se pode rompê-la se criá-la. Não é maldade. Não digo que sofri – na verdade, não lembro. Não é uma auto-consolação, nem um subterfúgio, nem rancor, ódio ou qualquer sentimento do mundo. Não é nada – apenas o nada deixado pela corrente quebrada. O homem que fala com ursos talvez não saiba disso.

Não sei o que ele sabe, nem sei direito o que ele é, ou o que ele gosta ou o que ele pensa. Sei uma enxurrada de informações desvaliosas, de tendência pessoal e injulgáveis, as quais apenas guardo. Sei que o homem continua falando com ursos mesmo muito tempo depois dos ursos terem se calado. O que o homem espera encontrar no fim de todas as conversas? Não se sabe. Talvez nem ele saiba. Mas não há nada para ser encontrado, pois nada foi perdido. As conversas não levam à lugar nenhum, posto que não se tratem de conversas.

Eu acho que no fundo de sua consciência, o homem sabe. A partida transformou-o num íntimo do idioma secreto dos ursos, e ele talvez tenha medo de quebrar também essa corrente. Só pode não saber que não está mais em seus poderes quebrá-la.

Brasileiro: Bicho Que Se Acomoda

 ou Fé, Quem Tem?

Não se pode obrigar alguém a ter fé. Isso desenvolve-se dentro, é criado dentro dos seres humanos em conjunto com sua maturidade, adquirida lentamente com a idade (muitas vezes nem isso), e é um processo lento e perigoso pois envolve uma série de escolhas e regras às quais o sujeito terá de se adequar. Não se tem fé porque seus pais tiveram, e não se tem fé porque foi-se batizado quando era apenas um recém nascido que não tinha nada em mente a não ser a fome, o sono e o desconforto.

O desenvolvimento da busca por aquilo que é mais cômodo tem levado à criação de uma geração de incapazes, frustrados e seguidores de diversos estilos, se não vazios, aos quais não dá nenhuma importância. A busca por uma identidade própria e por um desenvolvimento pessoal diminui significativamente conforme a indiferença e a hipocrisia aumentam. Ter fé porque um dia tiveram e porque lhe disseram para ter é simples – principalmente porque todos podem ser pecadores e julgadores ao mesmo tempo, sem ainda perderem o direito à vida no céu. O pecado, que já nunca existiu em prática, está perdendo sua teoria – nem quem crê em sua teoria se importa com sua veracidade.

Isso tudo diz  respeito da batalha interna, mas não pode ser externado àqueles que acreditam no pecado com todo o seu coração, ou que nele não acreditam desde o principio. Da mesma forma, aqueles que realmente acreditam no pecado, que realmente o temem e o evitam, não podem externar suas penas àqueles que não compartilham da mesma crença e esses não podem ser julgados pela crença que seguem.

Um civil está sujeito às leis do país, estado e município em que vive, tendo de servir a elas e podendo ser julgado apenas e unicamente por elas. Apenas governos diretamente relacionados com a religião podem usar dos ensinamentos teológicos nos quais acreditam para constituir e aplicar suas leis. Um estado laico, como o Brasil, não pode usar de nenhuma religião para justificar suas leis, mesmo que a religião em questão seja a da maioria – o governo está comprometido a defender também a minoria, e à ela deve respeito. Todos os civis devem ter os seus direitos respeitados, e não podem ser julgados, humilhados ou inferiorizados por nenhum tipo de crença religiosa ou opinião particular dos governantes de um país ou estado. O governante compromete-se, ao se candidatar, ao cuidado de uma população de maioria e minoria. O governante de um Estado laico, ao aceitar seu cargo, compromete-se a trabalhar sem ligar-se à religião, muito embora possa tê-la em sua vida pessoal. O que isso tudo quer dizer: tudo que um governante num estado laico faz não pode ter conexão com a religião. Ele não pode inferiorizar aqueles que não seguem a mesma teologia e não pode deixar que esses sejam inferiorizados, porque o Estado não segue nenhuma religião e não pode ter tendência à nenhuma delas.

Portanto, pouco importa que seja o governante e 99,9999999% da população do Brasil católicos: suas opiniões católicas estão vetadas de envolvimento com a lei. Assim sendo, não se pode discriminar um homem porque ele é islâmico. Também não se pode discriminar alguém por sua “opção sexual” e esse civil também tem direito ao casamento, seja ou não com alguém do mesmo sexo. A escolha do parceiro(a) de um casamento não compete ao governo, e não lhe diz respeito se os noivos são duas mulheres, dois homens ou um homem e uma mulher: sendo que esses são sujeitos adultos, maiores de idade, estão se casando por livre e espontânea vontade, são civis como todos os outros e apenas querem o direito de uma vida reconhecida como cônjuges, eles estão em seu direito. É dever do Estado não só permitir que tal fato se realize como também dar-lhes todos os benefícios dos outros casais.

Pelo mesmo raciocínio, não se pode julgar uma gestante que queira abortar. Aí está outro dever do governo: o de dar liberdade de escolha a essa mulher e permiti-la uma operação segura, indiferente ao que qualquer religião acredite. A mulher, da mesma forma que deve ter a liberdade e possibilidade de usar ou não meios contraceptivos, deve ter a liberdade e possibilidade de mudar de ideia ao engravidar. Mas que esteja alertado o aborto pode ser uma operação de risco, e não se pode voltar atrás. Se mediante esses riscos a gestante tenha interesse em continuar com a operação, ela deverá ser respeitada e tratada da melhor forma possível – pois é civil como todas as outras que optaram por não realizar a operação.

Todos nós sabemos disso. São fatos, não história. Por que, então, muitas leis no Brasil continuam seguindo uma linha que tende à religião da maioria? Porque aqueles que deveriam se erguer para dizer todas essas coisas não se importam ou não têm força suficiente para tal. Porque o brasileiro é um bicho que só luta até que possa se acomodar.

O Pecador e O Pecador

O pecado, senhores, encarem, está na cabeça do pecador. O pecado não há de existir, pois se não existe quem possa fazê-los pecados. O pecado não é como se fosse lei: eu dito, é pecado! Foi-se. Não, o pecado não se faz como lei, e também não é de caráter exclusivista, pois quem não peca? Sendo nós todos pecadores, conquanto sejamos perdoados às portas do paraíso perante nosso arrependimento intrínseco, damo-nos o direito de olhar àquele que comete o pecado em igual medida pecado, mas um que não o mesmo que nosso, dizemos: pecado!

O pecado é uma lenda criada para controlar aqueles sem força de espírito, e esses mesmos, por não terem força, quebram as leis do pecado no qual creem pois isso lhes dá o ânimo de serem fortes, pecadores, e ao mesmo tempo frágeis, sujeitos aos distúrbios da carne e do coração, pecadores da mesma forma. Se um culpado é perdoado infinitamente não importando qual foi seu crime ou de que forma fê-lo, esse não é culpado de nada. Se uma lei não é aplicada, sua teoria é existente, mas sua prática não. Um pecado não pode ser aplicado senão naqueles que nele creem, mas nele creem todos pois assim acreditaram seus pais e, ínfimos que são, não lhes cabe nem a oportunidade de escolha das próprias crenças – pegam-as dos pais. Os pecadores creem nos pecados que seus pais disseram um dia acreditar, mesmo que seus pais, em prática, não tenham acreditado ou cumprido nada. Se a fé se baseia simplesmente na continuação de antigos costumes e anedotas sem valor prático ou emocional, eu tenho fé na ingestão de farinha de mandioca no almoço, se não comer é pecado.

Cinco

Em uma madrugada você me disse que não existe amor em mim.

Penso agora, já mais calma, que foi uma coisa muito feia de se dizer. Que foi um jeito muito ruim de me atingir com suas investidas fracas – atingiu, mas não me deu nenhum remorso. Muito diferente disso, me deu uma grande raiva de você. Fico pensando que você realmente tem muita coragem de me ligar pra dizer isso. Cinco da manhã e não existe amor em mim.

Quis bater em você. De verdade. Ou falar algo bem feio pra você no telefone e desligar, falar que eu nunca mais quero ver a sua cara, que eu não quero mais que você fale comigo ou que sequer pense em mim, porque você não tem o direito de pensar em mim. Você pensa em mim de uma forma muito particular e errada. Não é em mim que não existe amor – responda, como te mostrar o meu carinho se você recusou todos os meus abraços, se você cuspiu em todas as minhas palavras bonitas, se você me machucou o tempo inteiro? Me responda aqui e agora como você esperava que nós fôssemos progredir com você sempre me empurrando para trás, como íamos andar se dávamos dois passos para frente e retrocedíamos cinco ou seis? Não sei se você esperava que eu ficasse a vida inteira procurando por você, indo atrás de você e querendo que você se importasse comigo o suficiente para que, pelo menos, não me machucasse mais. Eu fiz tudo isso por um bom tempo – mas uma hora cansa.

Não sei se você não sabe que quando se afasta as pessoas todas as vezes que elas tentam se aproximar o reflexo delas é não se aproximar mais. Há pessoas, como eu, que ainda são infinitamente otimistas e continuam insistindo. Mas mesmo nós, os insistentes, cansamos. Em determinado momento eu não queria mais suas palavras duras e suas atitudes violentas. Eu já tinha meus próprios problemas e nenhuma vontade de procurar por mais – ainda logo os meus problemas com você, que nunca se resolveram e nunca se resolverão. Eu queria só ficar aqui, mesmo que você passasse ao meu lado, perto o suficiente para me tocar e não tocando. Não tinha mais problema que você não olhasse para mim ou que não ouvisse nada do que eu falava – só queria ficar sozinha. Sem você.

É porque eu quero que você fique longe que não existe amor em mim? Pense bem. Eu não cheguei até aqui, longe de você, sozinha: você me empurrou até onde eu estou. Eu simplesmente aceitei o lugar que você escolheu para mim, e agora não quero sair daqui. Eu quero que as coisas continuem, nós duas como adultas e maduras (você nunca será madura, na verdade) e nos ignorando. Uma indiferença mútua.

Olha, nós já moramos nessa mesma casa desse mesmo jeito com esses mesmos problemas há dezesseis anos. Se agora nós não estamos mais brigando é porque nós estamos definitivamente interessadas naquilo sobre indiferença mútua que eu te contei. É o que eu quero e é o que você quer também – você sempre me ignorou, na verdade. Em todos esses dezesseis anos de convivência, as únicas vezes em que você olhou para mim de verdade foram pra me machucar. Então, por favor, não me ligue no meio da noite pra dizer que não existe amor em mim. Eu tenho muito, tenho um amor grande e vivo dentro de mim. Mas não é seu.

Não-Eu

De vez em quando a noite vinha vindo assim e me tomava o peito, ia entrando e se apossando como mais do que dona da casa. Começava a me dar uma grande vontade de gritar, uma vontade tão grande que descia raspando a garganta e me fechava a traquéia, uma vontade que ia descendo corpo abaixo até ser uma só: eu e a verdade absoluta. Essa vontade transformada em verdade me doía – eu andava pela casa e pensava: e agora? Dava uma olhadela para o fundo da minha mente e a vontade-verdade continuava impassível em sua existência.

Ia adiando pela noite quando dormia, mas de dia a verdade continuava lá, imóvel. Eu então adiava dia a fora, até a próxima noite. Eu ia passando o fardo cada vez mais pesado de um dia para o outro, até que em algum momento alguma coisa dizia que não, que não era assim. E eu parava pra pensar. Aí vinha o problema: que eu não estava nem um pouco satisfeito comigo mesmo. Divagava demais, sonhava demais, me iludia demais, não tinha nada ao que me fixar, era preguiçoso e nunca ia conseguir alcançar meus objetivos. Que qualquer coisa que eu escrevia não ficava boa ou poderia ficar melhor, e assim por diante – uma sucessão de coisas que eu não fazia e poderia fazer. Mas não fazia – meu ideal era ficar sentado esperando as coisas mudarem, já que no fundo cuidadosamente planejado da minha mente alguma coisa dizia que elas mudariam sozinhas e com o tempo. Isso não é verdade, eu sabia; aí uma das partes da verdade que eu engolia e engolia.

Desgostava daquela melancolia morna e silenciosa que lentamente se adequava aos meus dias; queria ter alguma coisa para me fazer levantar no dia seguinte. Queria ter alguma coisa que pudesse mostrar aos outros sobre mim, alguma coisa boa que eu talvez pudesse fazer se realmente quisesse. Queria alguma coisa flamejante, alguma coisa quente ou fria, alguma coisa, queria ser alguém, em algum lugar – queria qualquer coisa que não fosse a sempre-melancolia morna. Mas eu não tinha e também não perseguia.

Oito Meses de Exílio

Hoje de manhã, quando acordei, chovia. Uma chuvinha rala, calma. Era muito cedo: o céu ainda estava clareando. Fiz uma caneca de café e sentei numa cadeira lá na varanda. Deixei a chuva molhar meus pés.

Estava olhando para aquele céu cinza quando pensei: quanto tempo faz? Tentei raciocinar. Geralmente eu sabia tudo sobre isso de tempo, mas vezenquando ele se perdia, se enrolava, e eu esquecia de contá-lo. Quando não contamos o tempo, ele se perde. Mas cheguei numa conclusão: oito meses. Pensei que oito meses era tempo demais. Tantas coisas mudaram nesses oito meses, por que esse sentimento tinha que permanecer? Ele sempre permanecia. Não que eu quisesse voltar, ou que me doesse não voltar, isso já foi há muito tempo – mas que eu queria que você voltasse. Sempre quero. Um gole no café quente demais para comemorar a manhã cinza desse dia triste. Viva.

Não que exatamente queria que você voltasse, pensei, mas pelo menos queria a resposta para a grande pergunta que vinha devorando minha mente nos últimos oito meses: por quê? Tentava ignorar essa pergunta, mas ela insistia em mim até que eu acabasse sendo forçada a admitir que não sei. Oito meses de muitas hipóteses, mas eu não sei. Achei que sabia, mas cada vez mais as pessoas me dizem algo que me faz pensar de novo nessa pergunta. Então, se tenho que pensar nela de novo, é porque não sei a reposta. Lembro-me de que quando achei que sabia, optei por escolher a hipótese mais dura e que mais me machucava – porque a resposta é sempre a pior. Sempre a que mais machuca. Achei que, aceitando ela, não sofreria por nenhuma outra (afinal, eu tinha pego a mais difícil!) – e quase acertei. Eu não sofro, exatamente, mas a pergunta resiste: por quê? Oito meses de motivos pra você ter ido embora. Quantos motivos eu já tinha arranjado? Vinte? Quarenta? Cem? Mil? Pelo menos algumas dezenas. E a pergunta continua, e eu continuo escrevendo para você – de novo, por quê?

Eu quase esqueço de vez em quando. Quase. Aí alguma coisa me lembra você e pronto! Lembro de novo. Ficar lembrando não exatamente me entristece, mas me faz pensar na pergunta de novo. O que me entristece é eu nunca achar resposta para a pergunta e ter que ficar aqui pensando nela. Nessa manhã eu fiquei triste – quem saberia o que é que você estava fazendo, com onde, com quem, já esquecida de mim? Não que precisasse parar sua vida por minha causa. Não é isso, não tem nada com isso… Outro gole no café, para continuar as idéias. Não tem nada com nada, pensei, na verdade. Só tem com que eu estou sozinha aqui e eu não sei responder minhas perguntas. Me entristece.

Você já reparou como os passarinhos aquecem uns aos outros em dias frios? Eles ficam juntinhos, se esquentando, quietinhos. Quando um fica sozinho, ele canta e logo outro vem e se aninha. Queria poder fazer o mesmo – queria chamar e queria que você respondesse ao meu chamado. Mas não importa. Eu não tenho coragem pra chamar e você provavelmente também não teria coragem pra vir. Ou vontade. Vontade de chamar eu tenho, sim: mas tenho motivos para não chamar. Além da falta de coragem. Você deve ter os seus para não vir, caso eu chamasse. Mas em um mundo hipotético onde eu te chamo e você atende ao meu chamado, e se aninha ao meu corpo nesse frio, eu esqueço minha pergunta. Não importa mais, nesse cenário hipotético, que eu não entenda – você voltou, é o que importa. Mas não passa de hipótese.

Percebi de manhã que ficar sozinha com meu café na chuva da manhã quase me faz bem. Eu já não penso em você com peso. Mas penso. Vejo grandes chances de você continuar habitando minha mente infinitamente, sempre espreitando atrás do momento certo. O que me entristece, nesse pensamento, é que eu sei que vai passar para você. Mais do que já passou. Eu estou indo embora, e se vou embora daqui vou embora de você também. Definitivamente. Se eu for, vou continuar pensando nas mesmas coisas até que elas se apaguem com o tempo. Até que eu deixe de me importar com os motivos que te levaram a me deixar só, e que te levaram a me exilar. Assim sendo, se eu já não tenho chances de te chamar e você responder ao meu chamado, quando eu for embora terei menos chances ainda. Meus oito meses de exílio, ainda que tenham sido muitos, não foram suficientes para te apagar de mim e eu espero que não me tenham apagado de você – mas porque eu sempre estive por perto. Agora que não vou mais estar, a hipótese de você responder ao meu chamado passa a ser completamente nula. Já não era muito provável, afinal.

Eu sei que se eu for embora você vai acabar encontrando outra pessoa. Nós sempre encontramos outros amores, em outros lugares, que nos façam esquecer dos velhos. É como nos renovamos. Seria muito bom que eu fosse, então, não seria? Para você, talvez. Acho que para mim também. Mas eu não quero ir. Estou admitindo que prefiro encarar o exílio do que perder de vez as chances de cantar e você responder ao meu canto. Mas eu vou, porque as circunstâncias me empurram para frente. E você vai se esquecer completamente – mais do que já esqueceu.

Sabe, pensei, que a idéia de ter passado oito meses de exílio inútil me machuca? Não foi fácil, não foi agradável. Oito meses não é um final de semana. Tive, naturalmente, outras pessoas – mas nós sempre buscamos outras pessoas que nos nutram o suficiente para que possamos tentar passar por cima. Eu busquei meios de sair do meu exílio. Nem sempre corretos, eu admito, mas eu não me culpo por isso. Você me forçou a agir dessa forma. Mesmo assim, fiquei pensando naquela manhã que se talvez pudesse refazer as coisas faria diferente. Eu agi como agi porque, já contei, encarei a possibilidade mais dura e fiz dela a minha realidade. Nessa manhã estava pensando que talvez tenha escolhido errado.

Oito meses de exílio e a pergunta permanece: por quê?

O Castelo da Princesa

 

Querida, ontem de noite eu estava na rua dando aqueles goles de conhaque, você sabe, quando começou a chover. Começou uma chuva imensa e me deu uma vontade também imensa de ir até a sua casa, de procurar você. Mas já fazia tanto tempo que eu não te via mais, que eu não tinha mais notícias suas, onde é que você morava mesmo? Não, você não morava mais naquela casinha de onde eu te conheci, sabia que não. Aproveitei as pessoas que passavam com jornais na cabeça, apressados, e fui perguntando se eles sabiam onde é que a Princesa estava morando. “A Princesa, a Princesa! Você sabe onde ela mora?”, e todo mundo sabia. “Na rua 13. Muralhas altíssimas!”, eles me contaram.

Majestade, você não faz idéia de como a rua 13 é distante da rua onde eu estava! Mas eu estava decidido a te encontrar, então fui pisando nas poças e molhando meus pés descalços. Vi sua casa quando ainda me faltavam quarteirões para chegar: erguia-se, imponente, com muralhas verdadeiramente altíssimas, o seu renomado castelo. Senti alegria, Princesa, porque você estava chegando perto e porque tinha ido tão longe! Corri no cascalho duro, cortando meus pés, e não posso dizer qual foi a minha surpresa ao ser encarado com desprezo pelos guardas do portão principal.

Ainda chovia, e eles pareciam ridículos com grandes guarda-chuvas amarelos sobre as cabeças, como se fossem canarinhos com espingardas. Fui educado, falei que estava ali para ver a Princesa. Mas eles não me deixaram entrar: disseram que ali não entrava mendigo, que não abrigavam covardes e que por aquele portão não passava a imundície. Mas logo eu? Logo eu, Princesa?

Falei pra eles que eu era uma pessoa muito especial e que a Princesa teria honra em me ver. Eles acharam engraçado – só isso, engraçado. Engraçado! Tentei passar por eles, mas fui tão violentamente jogado para trás, vi tão de perto a raiva que eles tinham de mim, que desisti. Dei a volta, mas em todos os portões guardas e mais guardas de guarda-chuvas amarelos, todos canários, me espreitavam. Eles não iam me deixar passar de jeito nenhum, Princesa.

Passei a noite olhando pra torre mais alta, no meio do castelo. Quando amanheceu e a chuva foi embora, você apareceu na janela. Me deu um sorriso longe, longe, tão cansado e com saudades de mim. “A Princesa está sorrindo, ela quer me ver!” eu disse aos guardas, apontando freneticamente, mas você sumiu. Eu não tinha como provar que, lá do alto da sua torre, você queria me ver. Mas você queria, e você sabe que queria: quem vê um sorriso seu assim tão longe que não eu?

Por horas, tentei de todas as maneiras entrar na sua fortaleza. De vez em quando você aparecia lá no alto da torre, na janela, e me dava um sorriso. Mas como toda vez que eu tentava apontá-lo você logo desaparecia, desisti de falar neles e só sorria de volta. Mas você estava longe demais para me ver, eu acho. Ficava admirando o seu sorriso de longe, pensando se você não ia abrir os portões para mim. Estava achando maldade demais você me deixar lá fora, agora no sol fraco, com os pés sangrando pela minha caminhada. Mas você devia ter um motivo.

Um motivo.

Quando a tarde começou, voltou a chover e o céu escureceu tanto que já parecia noite. Os guardas, mesmo depois de horas e horas de proximidade comigo, ainda não pareciam acostumados com a minha presença: ficavam me olhando, olhos de canário, sem dizer um palavra. Me empurravam sempre que eu tentava me aproximar, mas eu não tentava mais. Estava esperando você descer da sua torre pra abrir os portões pra mim.

Você não foi me abrir os portões, mas desceu. E quando desceu eu te vi de longe e fiquei esperando, quietinho, dando um sorriso pra você. Você se aproximou das grades do portão, depois da longa caminhada na chuva, e eu esperei os guardas se afastarem pra você ir ali me receber. Eles não afastaram, e tudo o que você fez foi sussurrar naquela chuva: vá embora.

Princesa querida, eu posso ter-lhe sido um saco de pancadas, mas saiba que todo soco dói e uma hora cansa. Eu virei as costas e fui embora, na chuva, de novo.

A chuva foi rareando conforme eu me distanciava do seu castelo, e eu fiquei feliz por ficar sozinho. Quando olhei pro céu, vi as estrelas e me lembrei de uma vez em que estava deitado no chão, vendo as estrelas, e seu rosto apareceu em meu campo de visão. Você foi se aproximando, se aproximando, sentou na minha frente e ficou ali, me olhando. Princesa, eu lembrei dos seus olhos e de como eles olhavam para os meus. Não entendi porque você estava me mandando embora daquele jeito depois de ter olhado com aqueles olhos para mim.

Demorei, é verdade, algumas boas horas para compreender. Seu castelo, seus guardas, sua muralha, sua torre e sua pequenina janela no alto da torre. Princesa, está na hora de você descer da torre, de não sorrir mais de longe, de abrir os portões do castelo. Em minha volta pela sua fortaleza, vi um monte de gente tentando entrar pra falar com você, mas seus guardas não deixaram ninguém passar. Não diziam a mesma coisa que disseram para mim, sobre mendigo, covarde e imundície e também não empurraram ninguém com tanta violência, mas ninguém entrou de forma alguma.

O que compreendi, Princesa, quando já estava sozinho em casa, foi que o problema não é que você não me deixe entrar: o problema é que você não deixe entrar ninguém. Se continuar nessa sua torre, distante, com sorrisos de longe para pessoas que nem sempre conseguem enxergá-los como eu acho que consegui, uma hora ou outra você vai ficar sozinha. As pessoas vão desistir de te visitar. Amigo não é animal não, viu? Visita não precisa ser escorraçada.

Desça da sua torre, Princesa, e destitua seus guardas do posto. Antes que seja tarde.

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