Num Piscar de Olhos
ou Promessa Número Um
O sol que vinha cortando do céu, diretamente do céu, descendo em linhas luminosas, vibrante naqueles cabelos de cores clareadas, diversas, indefinidas. O sol tocou o rosto, que era alvo, e sério, atento, olhava para a frente em profunda concentração. Mas eu não estava prestando nenhuma atenção naquela expressão: meus olhos eram olhos para aqueles outros olhos. Também não tinham definição. Eram verdes. Ou não eram. Castanhos. Ou não eram. Eram bonitos – ah, isso eram, definidamente bonitos, e aquela cor nova não causava em mim nenhum espanto, mas uma espécie de ternura morna que se insinuava para dentro do peito, como que escorrendo, daquela cor, daqueles olhos. Minha compreensão era muito limitada. Sequer compreendia alguma coisa. Meu mundo era formado por aquela visão: uma mulher, e o sol que batia. O sol que batia era tão importante quanto a mulher que iluminava, e os dois, ali, ignorando-se mutuamente, eram o meu casal mais lindo. O rosto tomava calor, ignorando os raios que lhe aqueciam, e a mulher mexia no cabelo, na ponta de uma das mechas, em sua compreensão inconsciente de que eu a observava. Meus olhos se enchiam de ternura, que escorria. Escorria para dentro de meu peito. Nada mais havia. Que era aquilo, aquela menina, ou mulher, não sei bem? Por onde é que se separa uma menina de uma mulher? Havia eu, o infinito daquele espaço, e ela, sentada distante, inconscientemente consciente de que eu a observava em meu silêncio. O súbito daquele momento era que – eu não compreendia o porquê – eu a observava com ternura evidente, força máxima. Como se fizesse uma promessa. Eu fazia. Faria tantas outras. Mas aquela era a primeira promessa: de que faria sempre seus olhos derramarem a cor indefinível. Eu lembraria daquele segundo único incontáveis vezes. E naquele segundo único, o meu universo, antes tão grande, vibrante, volátil e volúvel, perdia suas cores: era cinza. E ganhava cores novas: era maravilhoso. Nada havia entre nós, eu e aquela menina-mulher-eu-não-sei-bem que ingenuamente se aquecia ao sol. E eu olhava aqueles lábios e pensava: que é que fazem sozinhos? Olhava aquelas mãos e pensava: que é que fazem sozinhas? Olhava aquele coração e pensava: que é que faz sozinho? Meu Deus, o que é que essa menina está fazendo sentada ali sozinha, nesse momento único? O que é preciso para alcançá-la? Eu preciso ser o sol? Iluminá-la ou aquecê-la? Existe algo dentro de mim que é quente, vibrante, e eu não sei direito como devo tratar. Raspa um pouco a minha garganta, algumas vezes escorre dos meus olhos. Tenho dificuldade em compreender esse sentimento novo, nascido nesse toque entre o sol e menina, esse momento mágico que só eu vi e só eu pude compreender. Não peço nada, nem nego nada, nem espero por nada: o segundo, em seu infinito, acaba. A menina pisca os olhos.