O Castelo da Princesa
by diimi
Querida, ontem de noite eu estava na rua dando aqueles goles de conhaque, você sabe, quando começou a chover. Começou uma chuva imensa e me deu uma vontade também imensa de ir até a sua casa, de procurar você. Mas já fazia tanto tempo que eu não te via mais, que eu não tinha mais notícias suas, onde é que você morava mesmo? Não, você não morava mais naquela casinha de onde eu te conheci, sabia que não. Aproveitei as pessoas que passavam com jornais na cabeça, apressados, e fui perguntando se eles sabiam onde é que a Princesa estava morando. “A Princesa, a Princesa! Você sabe onde ela mora?”, e todo mundo sabia. “Na rua 13. Muralhas altíssimas!”, eles me contaram.
Majestade, você não faz idéia de como a rua 13 é distante da rua onde eu estava! Mas eu estava decidido a te encontrar, então fui pisando nas poças e molhando meus pés descalços. Vi sua casa quando ainda me faltavam quarteirões para chegar: erguia-se, imponente, com muralhas verdadeiramente altíssimas, o seu renomado castelo. Senti alegria, Princesa, porque você estava chegando perto e porque tinha ido tão longe! Corri no cascalho duro, cortando meus pés, e não posso dizer qual foi a minha surpresa ao ser encarado com desprezo pelos guardas do portão principal.
Ainda chovia, e eles pareciam ridículos com grandes guarda-chuvas amarelos sobre as cabeças, como se fossem canarinhos com espingardas. Fui educado, falei que estava ali para ver a Princesa. Mas eles não me deixaram entrar: disseram que ali não entrava mendigo, que não abrigavam covardes e que por aquele portão não passava a imundície. Mas logo eu? Logo eu, Princesa?
Falei pra eles que eu era uma pessoa muito especial e que a Princesa teria honra em me ver. Eles acharam engraçado – só isso, engraçado. Engraçado! Tentei passar por eles, mas fui tão violentamente jogado para trás, vi tão de perto a raiva que eles tinham de mim, que desisti. Dei a volta, mas em todos os portões guardas e mais guardas de guarda-chuvas amarelos, todos canários, me espreitavam. Eles não iam me deixar passar de jeito nenhum, Princesa.
Passei a noite olhando pra torre mais alta, no meio do castelo. Quando amanheceu e a chuva foi embora, você apareceu na janela. Me deu um sorriso longe, longe, tão cansado e com saudades de mim. “A Princesa está sorrindo, ela quer me ver!” eu disse aos guardas, apontando freneticamente, mas você sumiu. Eu não tinha como provar que, lá do alto da sua torre, você queria me ver. Mas você queria, e você sabe que queria: quem vê um sorriso seu assim tão longe que não eu?
Por horas, tentei de todas as maneiras entrar na sua fortaleza. De vez em quando você aparecia lá no alto da torre, na janela, e me dava um sorriso. Mas como toda vez que eu tentava apontá-lo você logo desaparecia, desisti de falar neles e só sorria de volta. Mas você estava longe demais para me ver, eu acho. Ficava admirando o seu sorriso de longe, pensando se você não ia abrir os portões para mim. Estava achando maldade demais você me deixar lá fora, agora no sol fraco, com os pés sangrando pela minha caminhada. Mas você devia ter um motivo.
Um motivo.
Quando a tarde começou, voltou a chover e o céu escureceu tanto que já parecia noite. Os guardas, mesmo depois de horas e horas de proximidade comigo, ainda não pareciam acostumados com a minha presença: ficavam me olhando, olhos de canário, sem dizer um palavra. Me empurravam sempre que eu tentava me aproximar, mas eu não tentava mais. Estava esperando você descer da sua torre pra abrir os portões pra mim.
Você não foi me abrir os portões, mas desceu. E quando desceu eu te vi de longe e fiquei esperando, quietinho, dando um sorriso pra você. Você se aproximou das grades do portão, depois da longa caminhada na chuva, e eu esperei os guardas se afastarem pra você ir ali me receber. Eles não afastaram, e tudo o que você fez foi sussurrar naquela chuva: vá embora.
Princesa querida, eu posso ter-lhe sido um saco de pancadas, mas saiba que todo soco dói e uma hora cansa. Eu virei as costas e fui embora, na chuva, de novo.
A chuva foi rareando conforme eu me distanciava do seu castelo, e eu fiquei feliz por ficar sozinho. Quando olhei pro céu, vi as estrelas e me lembrei de uma vez em que estava deitado no chão, vendo as estrelas, e seu rosto apareceu em meu campo de visão. Você foi se aproximando, se aproximando, sentou na minha frente e ficou ali, me olhando. Princesa, eu lembrei dos seus olhos e de como eles olhavam para os meus. Não entendi porque você estava me mandando embora daquele jeito depois de ter olhado com aqueles olhos para mim.
Demorei, é verdade, algumas boas horas para compreender. Seu castelo, seus guardas, sua muralha, sua torre e sua pequenina janela no alto da torre. Princesa, está na hora de você descer da torre, de não sorrir mais de longe, de abrir os portões do castelo. Em minha volta pela sua fortaleza, vi um monte de gente tentando entrar pra falar com você, mas seus guardas não deixaram ninguém passar. Não diziam a mesma coisa que disseram para mim, sobre mendigo, covarde e imundície e também não empurraram ninguém com tanta violência, mas ninguém entrou de forma alguma.
O que compreendi, Princesa, quando já estava sozinho em casa, foi que o problema não é que você não me deixe entrar: o problema é que você não deixe entrar ninguém. Se continuar nessa sua torre, distante, com sorrisos de longe para pessoas que nem sempre conseguem enxergá-los como eu acho que consegui, uma hora ou outra você vai ficar sozinha. As pessoas vão desistir de te visitar. Amigo não é animal não, viu? Visita não precisa ser escorraçada.
Desça da sua torre, Princesa, e destitua seus guardas do posto. Antes que seja tarde.