Não-Eu

by diimi

De vez em quando a noite vinha vindo assim e me tomava o peito, ia entrando e se apossando como mais do que dona da casa. Começava a me dar uma grande vontade de gritar, uma vontade tão grande que descia raspando a garganta e me fechava a traquéia, uma vontade que ia descendo corpo abaixo até ser uma só: eu e a verdade absoluta. Essa vontade transformada em verdade me doía – eu andava pela casa e pensava: e agora? Dava uma olhadela para o fundo da minha mente e a vontade-verdade continuava impassível em sua existência.

Ia adiando pela noite quando dormia, mas de dia a verdade continuava lá, imóvel. Eu então adiava dia a fora, até a próxima noite. Eu ia passando o fardo cada vez mais pesado de um dia para o outro, até que em algum momento alguma coisa dizia que não, que não era assim. E eu parava pra pensar. Aí vinha o problema: que eu não estava nem um pouco satisfeito comigo mesmo. Divagava demais, sonhava demais, me iludia demais, não tinha nada ao que me fixar, era preguiçoso e nunca ia conseguir alcançar meus objetivos. Que qualquer coisa que eu escrevia não ficava boa ou poderia ficar melhor, e assim por diante – uma sucessão de coisas que eu não fazia e poderia fazer. Mas não fazia – meu ideal era ficar sentado esperando as coisas mudarem, já que no fundo cuidadosamente planejado da minha mente alguma coisa dizia que elas mudariam sozinhas e com o tempo. Isso não é verdade, eu sabia; aí uma das partes da verdade que eu engolia e engolia.

Desgostava daquela melancolia morna e silenciosa que lentamente se adequava aos meus dias; queria ter alguma coisa para me fazer levantar no dia seguinte. Queria ter alguma coisa que pudesse mostrar aos outros sobre mim, alguma coisa boa que eu talvez pudesse fazer se realmente quisesse. Queria alguma coisa flamejante, alguma coisa quente ou fria, alguma coisa, queria ser alguém, em algum lugar – queria qualquer coisa que não fosse a sempre-melancolia morna. Mas eu não tinha e também não perseguia.