Oito Meses de Exílio
by diimi
Hoje de manhã, quando acordei, chovia. Uma chuvinha rala, calma. Era muito cedo: o céu ainda estava clareando. Fiz uma caneca de café e sentei numa cadeira lá na varanda. Deixei a chuva molhar meus pés.
Estava olhando para aquele céu cinza quando pensei: quanto tempo faz? Tentei raciocinar. Geralmente eu sabia tudo sobre isso de tempo, mas vezenquando ele se perdia, se enrolava, e eu esquecia de contá-lo. Quando não contamos o tempo, ele se perde. Mas cheguei numa conclusão: oito meses. Pensei que oito meses era tempo demais. Tantas coisas mudaram nesses oito meses, por que esse sentimento tinha que permanecer? Ele sempre permanecia. Não que eu quisesse voltar, ou que me doesse não voltar, isso já foi há muito tempo – mas que eu queria que você voltasse. Sempre quero. Um gole no café quente demais para comemorar a manhã cinza desse dia triste. Viva.
Não que exatamente queria que você voltasse, pensei, mas pelo menos queria a resposta para a grande pergunta que vinha devorando minha mente nos últimos oito meses: por quê? Tentava ignorar essa pergunta, mas ela insistia em mim até que eu acabasse sendo forçada a admitir que não sei. Oito meses de muitas hipóteses, mas eu não sei. Achei que sabia, mas cada vez mais as pessoas me dizem algo que me faz pensar de novo nessa pergunta. Então, se tenho que pensar nela de novo, é porque não sei a reposta. Lembro-me de que quando achei que sabia, optei por escolher a hipótese mais dura e que mais me machucava – porque a resposta é sempre a pior. Sempre a que mais machuca. Achei que, aceitando ela, não sofreria por nenhuma outra (afinal, eu tinha pego a mais difícil!) – e quase acertei. Eu não sofro, exatamente, mas a pergunta resiste: por quê? Oito meses de motivos pra você ter ido embora. Quantos motivos eu já tinha arranjado? Vinte? Quarenta? Cem? Mil? Pelo menos algumas dezenas. E a pergunta continua, e eu continuo escrevendo para você – de novo, por quê?
Eu quase esqueço de vez em quando. Quase. Aí alguma coisa me lembra você e pronto! Lembro de novo. Ficar lembrando não exatamente me entristece, mas me faz pensar na pergunta de novo. O que me entristece é eu nunca achar resposta para a pergunta e ter que ficar aqui pensando nela. Nessa manhã eu fiquei triste – quem saberia o que é que você estava fazendo, com onde, com quem, já esquecida de mim? Não que precisasse parar sua vida por minha causa. Não é isso, não tem nada com isso… Outro gole no café, para continuar as idéias. Não tem nada com nada, pensei, na verdade. Só tem com que eu estou sozinha aqui e eu não sei responder minhas perguntas. Me entristece.
Você já reparou como os passarinhos aquecem uns aos outros em dias frios? Eles ficam juntinhos, se esquentando, quietinhos. Quando um fica sozinho, ele canta e logo outro vem e se aninha. Queria poder fazer o mesmo – queria chamar e queria que você respondesse ao meu chamado. Mas não importa. Eu não tenho coragem pra chamar e você provavelmente também não teria coragem pra vir. Ou vontade. Vontade de chamar eu tenho, sim: mas tenho motivos para não chamar. Além da falta de coragem. Você deve ter os seus para não vir, caso eu chamasse. Mas em um mundo hipotético onde eu te chamo e você atende ao meu chamado, e se aninha ao meu corpo nesse frio, eu esqueço minha pergunta. Não importa mais, nesse cenário hipotético, que eu não entenda – você voltou, é o que importa. Mas não passa de hipótese.
Percebi de manhã que ficar sozinha com meu café na chuva da manhã quase me faz bem. Eu já não penso em você com peso. Mas penso. Vejo grandes chances de você continuar habitando minha mente infinitamente, sempre espreitando atrás do momento certo. O que me entristece, nesse pensamento, é que eu sei que vai passar para você. Mais do que já passou. Eu estou indo embora, e se vou embora daqui vou embora de você também. Definitivamente. Se eu for, vou continuar pensando nas mesmas coisas até que elas se apaguem com o tempo. Até que eu deixe de me importar com os motivos que te levaram a me deixar só, e que te levaram a me exilar. Assim sendo, se eu já não tenho chances de te chamar e você responder ao meu chamado, quando eu for embora terei menos chances ainda. Meus oito meses de exílio, ainda que tenham sido muitos, não foram suficientes para te apagar de mim e eu espero que não me tenham apagado de você – mas porque eu sempre estive por perto. Agora que não vou mais estar, a hipótese de você responder ao meu chamado passa a ser completamente nula. Já não era muito provável, afinal.
Eu sei que se eu for embora você vai acabar encontrando outra pessoa. Nós sempre encontramos outros amores, em outros lugares, que nos façam esquecer dos velhos. É como nos renovamos. Seria muito bom que eu fosse, então, não seria? Para você, talvez. Acho que para mim também. Mas eu não quero ir. Estou admitindo que prefiro encarar o exílio do que perder de vez as chances de cantar e você responder ao meu canto. Mas eu vou, porque as circunstâncias me empurram para frente. E você vai se esquecer completamente – mais do que já esqueceu.
Sabe, pensei, que a idéia de ter passado oito meses de exílio inútil me machuca? Não foi fácil, não foi agradável. Oito meses não é um final de semana. Tive, naturalmente, outras pessoas – mas nós sempre buscamos outras pessoas que nos nutram o suficiente para que possamos tentar passar por cima. Eu busquei meios de sair do meu exílio. Nem sempre corretos, eu admito, mas eu não me culpo por isso. Você me forçou a agir dessa forma. Mesmo assim, fiquei pensando naquela manhã que se talvez pudesse refazer as coisas faria diferente. Eu agi como agi porque, já contei, encarei a possibilidade mais dura e fiz dela a minha realidade. Nessa manhã estava pensando que talvez tenha escolhido errado.
Oito meses de exílio e a pergunta permanece: por quê?