Cinco

by diimi

Em uma madrugada você me disse que não existe amor em mim.

Penso agora, já mais calma, que foi uma coisa muito feia de se dizer. Que foi um jeito muito ruim de me atingir com suas investidas fracas – atingiu, mas não me deu nenhum remorso. Muito diferente disso, me deu uma grande raiva de você. Fico pensando que você realmente tem muita coragem de me ligar pra dizer isso. Cinco da manhã e não existe amor em mim.

Quis bater em você. De verdade. Ou falar algo bem feio pra você no telefone e desligar, falar que eu nunca mais quero ver a sua cara, que eu não quero mais que você fale comigo ou que sequer pense em mim, porque você não tem o direito de pensar em mim. Você pensa em mim de uma forma muito particular e errada. Não é em mim que não existe amor – responda, como te mostrar o meu carinho se você recusou todos os meus abraços, se você cuspiu em todas as minhas palavras bonitas, se você me machucou o tempo inteiro? Me responda aqui e agora como você esperava que nós fôssemos progredir com você sempre me empurrando para trás, como íamos andar se dávamos dois passos para frente e retrocedíamos cinco ou seis? Não sei se você esperava que eu ficasse a vida inteira procurando por você, indo atrás de você e querendo que você se importasse comigo o suficiente para que, pelo menos, não me machucasse mais. Eu fiz tudo isso por um bom tempo – mas uma hora cansa.

Não sei se você não sabe que quando se afasta as pessoas todas as vezes que elas tentam se aproximar o reflexo delas é não se aproximar mais. Há pessoas, como eu, que ainda são infinitamente otimistas e continuam insistindo. Mas mesmo nós, os insistentes, cansamos. Em determinado momento eu não queria mais suas palavras duras e suas atitudes violentas. Eu já tinha meus próprios problemas e nenhuma vontade de procurar por mais – ainda logo os meus problemas com você, que nunca se resolveram e nunca se resolverão. Eu queria só ficar aqui, mesmo que você passasse ao meu lado, perto o suficiente para me tocar e não tocando. Não tinha mais problema que você não olhasse para mim ou que não ouvisse nada do que eu falava – só queria ficar sozinha. Sem você.

É porque eu quero que você fique longe que não existe amor em mim? Pense bem. Eu não cheguei até aqui, longe de você, sozinha: você me empurrou até onde eu estou. Eu simplesmente aceitei o lugar que você escolheu para mim, e agora não quero sair daqui. Eu quero que as coisas continuem, nós duas como adultas e maduras (você nunca será madura, na verdade) e nos ignorando. Uma indiferença mútua.

Olha, nós já moramos nessa mesma casa desse mesmo jeito com esses mesmos problemas há dezesseis anos. Se agora nós não estamos mais brigando é porque nós estamos definitivamente interessadas naquilo sobre indiferença mútua que eu te contei. É o que eu quero e é o que você quer também – você sempre me ignorou, na verdade. Em todos esses dezesseis anos de convivência, as únicas vezes em que você olhou para mim de verdade foram pra me machucar. Então, por favor, não me ligue no meio da noite pra dizer que não existe amor em mim. Eu tenho muito, tenho um amor grande e vivo dentro de mim. Mas não é seu.