Brasileiro: Bicho Que Se Acomoda

by diimi

 ou Fé, Quem Tem?

Não se pode obrigar alguém a ter fé. Isso desenvolve-se dentro, é criado dentro dos seres humanos em conjunto com sua maturidade, adquirida lentamente com a idade (muitas vezes nem isso), e é um processo lento e perigoso pois envolve uma série de escolhas e regras às quais o sujeito terá de se adequar. Não se tem fé porque seus pais tiveram, e não se tem fé porque foi-se batizado quando era apenas um recém nascido que não tinha nada em mente a não ser a fome, o sono e o desconforto.

O desenvolvimento da busca por aquilo que é mais cômodo tem levado à criação de uma geração de incapazes, frustrados e seguidores de diversos estilos, se não vazios, aos quais não dá nenhuma importância. A busca por uma identidade própria e por um desenvolvimento pessoal diminui significativamente conforme a indiferença e a hipocrisia aumentam. Ter fé porque um dia tiveram e porque lhe disseram para ter é simples – principalmente porque todos podem ser pecadores e julgadores ao mesmo tempo, sem ainda perderem o direito à vida no céu. O pecado, que já nunca existiu em prática, está perdendo sua teoria – nem quem crê em sua teoria se importa com sua veracidade.

Isso tudo diz  respeito da batalha interna, mas não pode ser externado àqueles que acreditam no pecado com todo o seu coração, ou que nele não acreditam desde o principio. Da mesma forma, aqueles que realmente acreditam no pecado, que realmente o temem e o evitam, não podem externar suas penas àqueles que não compartilham da mesma crença e esses não podem ser julgados pela crença que seguem.

Um civil está sujeito às leis do país, estado e município em que vive, tendo de servir a elas e podendo ser julgado apenas e unicamente por elas. Apenas governos diretamente relacionados com a religião podem usar dos ensinamentos teológicos nos quais acreditam para constituir e aplicar suas leis. Um estado laico, como o Brasil, não pode usar de nenhuma religião para justificar suas leis, mesmo que a religião em questão seja a da maioria – o governo está comprometido a defender também a minoria, e à ela deve respeito. Todos os civis devem ter os seus direitos respeitados, e não podem ser julgados, humilhados ou inferiorizados por nenhum tipo de crença religiosa ou opinião particular dos governantes de um país ou estado. O governante compromete-se, ao se candidatar, ao cuidado de uma população de maioria e minoria. O governante de um Estado laico, ao aceitar seu cargo, compromete-se a trabalhar sem ligar-se à religião, muito embora possa tê-la em sua vida pessoal. O que isso tudo quer dizer: tudo que um governante num estado laico faz não pode ter conexão com a religião. Ele não pode inferiorizar aqueles que não seguem a mesma teologia e não pode deixar que esses sejam inferiorizados, porque o Estado não segue nenhuma religião e não pode ter tendência à nenhuma delas.

Portanto, pouco importa que seja o governante e 99,9999999% da população do Brasil católicos: suas opiniões católicas estão vetadas de envolvimento com a lei. Assim sendo, não se pode discriminar um homem porque ele é islâmico. Também não se pode discriminar alguém por sua “opção sexual” e esse civil também tem direito ao casamento, seja ou não com alguém do mesmo sexo. A escolha do parceiro(a) de um casamento não compete ao governo, e não lhe diz respeito se os noivos são duas mulheres, dois homens ou um homem e uma mulher: sendo que esses são sujeitos adultos, maiores de idade, estão se casando por livre e espontânea vontade, são civis como todos os outros e apenas querem o direito de uma vida reconhecida como cônjuges, eles estão em seu direito. É dever do Estado não só permitir que tal fato se realize como também dar-lhes todos os benefícios dos outros casais.

Pelo mesmo raciocínio, não se pode julgar uma gestante que queira abortar. Aí está outro dever do governo: o de dar liberdade de escolha a essa mulher e permiti-la uma operação segura, indiferente ao que qualquer religião acredite. A mulher, da mesma forma que deve ter a liberdade e possibilidade de usar ou não meios contraceptivos, deve ter a liberdade e possibilidade de mudar de ideia ao engravidar. Mas que esteja alertado o aborto pode ser uma operação de risco, e não se pode voltar atrás. Se mediante esses riscos a gestante tenha interesse em continuar com a operação, ela deverá ser respeitada e tratada da melhor forma possível – pois é civil como todas as outras que optaram por não realizar a operação.

Todos nós sabemos disso. São fatos, não história. Por que, então, muitas leis no Brasil continuam seguindo uma linha que tende à religião da maioria? Porque aqueles que deveriam se erguer para dizer todas essas coisas não se importam ou não têm força suficiente para tal. Porque o brasileiro é um bicho que só luta até que possa se acomodar.