O Homem Que Falava Com Ursos I

by diimi

Quando olhou os olhos dela naquele começo de alvorada, soube que já era hora de partir. O inadiável vinha sendo adiado já fazia tempo, e a situação cada vez mais insustentável vinha sendo sustentada à força, engolida por mais que ele se achasse de todo um corpo cheio daquela podridão. A distância não o assustava, tampouco a idéia do desemprego – o que o assustava era de fato o medo da solidão. De ser um ser só, único e sozinho, que, por mais que tivesse já um bebê de alguns anos, por ele não seria inteiramente reconhecido. O preço de sua liberdade podia ser a solidão eterna e incurável, a solidão interna. Mas disso não se sabia – era um risco, pegar ou largar, ir ou ficar. Ele aceitou o risco.

Foi-se num dia do qual não tenho memória. Não sei como foi sua partida, nem o que disse ao partir, nem se houveram saudades e tristezas ou talvez um pouquinho de alegria – não sei nada. Sua partida é tão verdade para mim quanto qualquer outra coisa de passado remoto que me contem. Mas se eu acredito? É claro que acredito. Em alguma coisa se tem que acreditar, e a história se monta naquilo que acredita-se ou acreditou-se um dia – eu acredito que tenha ido embora num dia triste e que tenha dito algumas palavras bonitas de esperança, mas palavras bonitas de esperança só servem para serem ouvidas e lembradas. As dele nem lembradas foram.

Partiu-se, então. Foi para a nova vida. Se já tinha alguém nela? Eu não sei. Se foi difícil, se foi fácil, se foi bom ou se ele teve vontade de voltar? Eu também não sei. Se perdeu-se em espirais consecutivas de uma auto-miséria ou se deixou esfarelar ao regar de uma vitória, não sei. Se me contaram, já esqueci. Sei que foi, e em algum momento encontrou alguém – não sei depois de quantas pessoas, nem sei se houveram pessoas antes. Tirou o pó de si e casou-se.

Quando se casou eu também não sei, nem como foi o casamento, se foi bonito ou feio, se foi muita gente ou pouca ou se realmente aconteceu. Não sei – esqueceram-me. Sei que falava com ursos. Não sei também quando foi que começou a conversar, ou se era eu quem falava e ele roubou-me o dom, ou se assim começou a fazer porque ainda se sentia sozinho. Em algum tempo, começou a falar com ursos. Fingia ouvir umas respostas (ou talvez as ouvisse), algumas vezes mirava-os com mútua compreensão, e sempre levava pelo menos um consigo aonde quer que fosse. Os ursos eram – sempre foram – a infinita representação de um dos castigos de sua partida: a minha distância.

Não há o que re-estabeleça o rompimento adiantado de uma tentativa de conexão – nem dinheiro nem uma visita por ano ou qualquer tentativa do mundo. Partindo-se essa corrente não se pode atá-la, da mesma forma que não se pode rompê-la se criá-la. Não é maldade. Não digo que sofri – na verdade, não lembro. Não é uma auto-consolação, nem um subterfúgio, nem rancor, ódio ou qualquer sentimento do mundo. Não é nada – apenas o nada deixado pela corrente quebrada. O homem que fala com ursos talvez não saiba disso.

Não sei o que ele sabe, nem sei direito o que ele é, ou o que ele gosta ou o que ele pensa. Sei uma enxurrada de informações desvaliosas, de tendência pessoal e injulgáveis, as quais apenas guardo. Sei que o homem continua falando com ursos mesmo muito tempo depois dos ursos terem se calado. O que o homem espera encontrar no fim de todas as conversas? Não se sabe. Talvez nem ele saiba. Mas não há nada para ser encontrado, pois nada foi perdido. As conversas não levam à lugar nenhum, posto que não se tratem de conversas.

Eu acho que no fundo de sua consciência, o homem sabe. A partida transformou-o num íntimo do idioma secreto dos ursos, e ele talvez tenha medo de quebrar também essa corrente. Só pode não saber que não está mais em seus poderes quebrá-la.