Liberdade

by diimi

Imagine este homem que, achando-se detentor de muita liberdade, parou na beirada de um precipício e espiou para dentro. O que viu foi só uma descida gigantesca que terminava abruptamente, e para ela olhou até ouvir uma voz às suas costas. Ao virar-se, deparou-se com um velhinho de cabelos muito brancos, que lembrava mais um agrupamento de pequenas plumas. Sorriu para ele, acenando. “Você me assustou”, disse o homem ao velho.

“Penhascos geralmente deixam todos alerta, não é verdade? O que você fazia aí?” foi a pergunta do velhinho, e o homem alçou os olhos para um pássaro que voava livremente, em círculos no céu. “Eu estava contemplando a minha liberdade” foi a resposta.

“Como assim?” o velhinho de plumas no topo da cabeça estava bem próximo agora, quase lado a lado. Observaram-se por um instante. “Olhe.” pediu, indicando o abismo “Você também não sente a liberdade aflorar em suas veias? Se eu tenho a liberdade de me jogar, eu posso fazer qualquer coisa.”

O velhinho sacudiu a cabeça. “Por que não se joga, então?” parecia uma pergunta com vários caminhos. “Porque eu não quero morrer”, foi a resposta. O velhinho sorriu um sorriso de dentes gastos, e olhou-o mais profundamente, sábio. “Por que você não quer morrer?” perguntou, e o homem quase riu. “Ora essa, não quero morrer porque quero viver.”

“O que é viver pra você?” foi uma pergunta difícil. “Viver? Ué. Viver é viver. É continuar a vida. É evoluir, expandir meus caminhos, ver minha família crescer e os que estão à minha volta evoluírem também.”

“Mas você queria se matar?”, perguntou o velhinho insistente. O homem pensou por um instante. Algo naquele outro lhe atraía a sinceridade, como se a iscasse do fundo de sua mente. “Olhando de perto, acho que até sinto vontade de pular…”

“Então sua liberdade é completamente falsa.” retorquiu, e o homem começou a ficar irritado. “Minha liberdade reside exatamente na possibilidade de escolha.” O velhinho sorriu de novo. “Não. A escolha não significa liberdade, é uma obrigação. Você não pode não escolher: se não pular, escolheu isso, se pular, também escolheu. Sua falta de liberdade comprova-se pela escolha em não fazer algo que se tem vontade.”

O homem se calou.

“Mas não se sinta culpado por isso”, continuou o velho, “nossa raça não nasceu para ser livre. Só é livre quem é sozinho, e qual humano consegue viver sozinho? Não há. Aqueles que tentam, enquadram-se numa sociedade esquematizada e não são sós. O agrupamento de seres humanos fez nascer uma sociedade e diversos graus de importância, tais como família e amizade, aos quais o ser está profundamente atrelado e que são ainda mais limitadores da liberdade do que qualquer outro. Vê, não se joga porque não quer abandonar aqueles que gosta, e esses também não se jogariam pelo mesmo motivo. Deixamos de fazer determinadas coisas pela preocupação de que elas machuquem aqueles que gostamos – somos presos às pessoas. A amizade, o amor, a paixão – nos prendem, nos limitam e nos machucam por toda a existência, mas também são os motivos pelos quais escolhemos não pular. O ser humano não consegue se livrar disso, nem se livrará: ele não nasceu para ser só, pois, se assim tivesse acontecido, não mais existiria. Se o homem sentasse diante de si e em si pensasse, seus desejos realizasse sozinho e se fosse indiferente ao resto do mundo, se jogaria. Todo pequeno humano que olhasse para si mesmo, mais cedo ou mais tarde se lançaria ao precipício. Você me pergunta agora, por quê? Porque uma diversidade imensa de sentimentos existe nos homens, e deles estes são prisioneiros eternos. A união existe para os homens como um antídoto para o próprio sentir, pois o sentir é incompleto, incapaz de se completar, e inclina o homem à morte. Se não fôssemos todos presos à outros homens, morreríamos pela liberdade de morrer, e não viveríamos pela liberdade de viver – por vivermos não existe liberdade.”

Quando o velho se afastou, o homem olhava desejosamente pela beirada do precipício.